Now Playing Tracks

Se você estiver lendo isso…

provavelmente eu devo estar morto. Hoje é dia 21 de Outubro do ano de 2091, o dia mais triste de minha vida. Ela se foi. Lembro-me como se fosse ontem o dia em que a conheci…

Foi no dia 29 de julho de 2010, em um encontro de jovens na região metropolitana da cidade que moro. Não chegamos a conversar, mas foi a primeira vez que vi a menina por quem eu me apaixonaria alguns meses depois.

Em setembro daquele mesmo ano, houve um outro encontro de jovens e nos conhecemos melhor. Passamos a conversar e a amizade começou a se tornar mais forte, até que no dia 17 de Outubro, em um momento único de afeto e incerteza, dei-lhe um beijo, no qual tudo começou.

Esse carinho foi aumentando cada vez mais. A confiança e o amor cresceram tanto que, no dia 6 de Janeiro do ano seguinte resolvi pedi-la em namoro. Um momento único na minha vida.

-Eu gosto muito de você. - disse ela, com um sorriso no rosto.

-Pare com isso! Eu te amo! -  respondi, completando a resposta com um forte abraço.

Viajei para o exterior três semanas depois disso. Fiz questão de levantar todos os dias às 4 horas da manhã para falar com minha namorada. Quando voltei, no nosso aniversário de um mês de namoro, lá estava ela, me esperando no aeroporto. Eu tinha certeza que seria para sempre.

Os meses foram passando, passamos o aniversário dela de 15 anos juntos, assim como o meu de 17. Comemoramos as passagens dos meses como se fossem anos. Fomos a festas (2), shows (3), mandei flores (4), participamos de eventos de grupos de jovens (5 & 6), fomos ao mercado juntos (7)… 

Pequenas e grandes coisas foram marcando nossa caminhada, quando no dia 13 de Agosto de 2011 eu fiz um grande pedido a ela. Eu a pedi em casamento. A resposta? Nunca fiquei tão feliz em ouvir uma palavra tão pequena - SIM!

A vida foi passando, estávamos sempre juntos, tanto nos momentos bons quanto nos ruins. E como houve momentos bons… Viajamos juntos no começo de 2012. Passamos semanas juntos, como se não houvesse uma possibilidade de nos separarmos. Eu me formei no Ensino Médio e ingressei na faculdade, enquanto ela terminou o segundo grau neste ano.

Já empregados e com uma carreira com uma ótima base, resolvemos nos casar em 2019. Uma cerimônia linda, na qual ela usou um lindo vestido branco. Senti-me como o homem mais feliz do mundo.

Tivemos três filhos, um casal de gêmeos e depois mais um filho. Eles cresceram e nos agraciaram com lindos netos.

Mas a vida continuou, e ela adoeceu. Continuei cuidando muito bem dela, mas não foi o suficiente… Por isso escrevo aos prantos sobre o leito de minha amada, que faleceu hoje, exatamente no dia por ela estabelecido, oitenta anos, quatro meses e 15 dias depois do nosso aniversário de 5 meses de namoro.

——

Se você quiser amar, ame! Se você quiser viver, viva! Se você quiser gritar, grite! Mas faça tudo valer a pena.

Eu fiz, ela fez. Nós fizemos juntos!

Não desista dos seus sonhos. Cumpra-os e orgulhe-se deles, pois no final tudo vale a pena, pois tudo é lindo. O amor é lindo!

Uma pequena homenagem à mulher da minha vida, nesses nossos oito meses juntos, nos quais só nós dois sabemos o que passamos e ainda passaremos como casal.

Cirque de l’enfance

-Papai, papai! Me leva no circo? Por favor, por favor!

-Hoje não posso, filhão. O papai tem que trabalhar até tarde hoje lá na empresa.

-Mas papai, é só hoje! Amanhã você pode trabalhar, não pode?

-Ah, querido, eu queria muito levar você, mas tem uns homens malvados lá na empresa que não querem que eu te leve. Você perdoa seu pai?

-Eu não gosto dos seus amigos, papai. Você me leva amanhã então? A Mirella também quer ir.

-Vocês sabem que eu faço de tudo para os gêmeos mais lindos do mundo sorrirem, não é? Levo vocês dois amanhã então, combinado?

-A mamãe pode ir também? O Dudu também quer ir!

-É mesmo, vou ver com ela então. Mas talvez ela tenha que ficar em casa. A barriga dela já está bem grande, né?

-Sim! Quando que meu irmãozinho vai nascer?

-Em poucos dias, se Deus quiser. O papai está atrasado, então tenho que correr. Beijo, filhão.

Dei um beijo na bochecha do papai e fui deitar. Eu estava cansado de tanto brincar com a Mirella. Sabia que eu e ela somos gêmeos e nascemos no mesmo dia? Mas eu sou mais velho. A mamãe disse que eu nasci dois minutos antes que ela.

Meus pais sempre dizem para eu não conversar com estranhos, então, qual o seu nome? Que nome bonito! Me chamam de Júnior, ou Juninho, se preferir. Agora que a gente se conhece, posso conversar com você. Que legal, né?

Eu tenho 5 anos e meio. Tenho cabelo amarelo e olhos bem azuis, iguais aos da mamãe. Minha irmã é bem parecida comigo, mas o cabelo dela é maior. Eu vou ter um outro irmãozinho também, o Dudu, mas ele ainda não saiu da barriga da minha mãe. Papai disse que ia demorar mais um pouquinho, mas quando ele chegar eu vou dar todo o carinho que posso.

Eu gosto de ir ao circo. Tem muita coisa legal lá. Tem bichos, pessoas que dançam e palhaços. É tudo bem div… Divertido. Que sono que está me dando. Acho que eu vou dor… Dormir. Papai diz que bocejo é contagiante, você sabia? Dá muito so… Dá muito so…

______

-Respeitável público, apresento a vocês o Circo das Crianças!

-Olha aquele homem de chapéu, papai! Viu que legal? Papai?

Acho que ele foi comprar pipoca pra mim. Eu gosto de pipoca.

Olha aquelas meninas com lenços coloridos! Elas pulam bastante, né? É muito legal quando elas jogam os bastões pra cima e pegam de novo. Eles vão muito alto! Nossa! O que é aquilo lá em cima? É um menino! Ele tá preso naquela corda? Será que ele não vai cair? Uau! Ele pulou, pegou o bastão que tava no ar e voltou pro lugar onde ele tava! Eu quero fazer isso também!

Mudou a música. O que é aquilo saindo das cortinas? Você viu o elefante. Muito grande ele, né? E aquela menina em cima dele está dançando. Aquela roupa branca ficou legal. Outro elefante! Será que são namorados? Eles colocaram as trombas juntas e formaram um coração! Que bonito! Queria que o papai e a mamãe estivessem aqui comigo. Eles iam dar um beijinho um no outro. Eles se amam bastante, sabia?

Olha aquele tigre! Um leão também! Ainda bem que tem uma grade em volta deles, se não eu ia ficar com medo. Tem um homem lá dentro! Que legal, os bichos obedecem ele! Acho que eles são amigos.

O homem de chapéu voltou!

-Senhoras e senhores, com vocês, o menino mais talentoso do mundo: Juninho!

-Eu?

-Sim, garoto, você mesmo! Venha cá!

Que vergonha. Será que eu posso ir lá? Acho que posso.

-Papai?

-Eu mesmo, filhão. Não tinha me reconhecido de longe?

-Não. Você está bem bonito de chapéu, sabia?

-É mesmo? Sua mãe diria que estou charmoso.

-Você é o melhor pai do mundo, papai. Eu te amo!

-Também te amo, filhão.

______

-Juninho, acorde! Vamos ao circo. Os homens malvados me liberaram e posso levar vocês hoje.

-Que bom, papai! Vamos então!

Mal sabe ele que o melhor circo da minha vida eu já vivi.

Um post dedicado ao dia dos pais - embora um pouco atrasado - mas a intenção continua sendo boa. O mais importante em um dia como esse não é o presente, mas um grande abraço e um sincero ‘Eu te amo’.

Obrigado por tudo, papai!

Silent: O que há de errado? III

A Sombra cai de joelhos no chão e leva as mãos ao rosto. Desespero-me. Grito por ajuda, mas ninguém aparece. Não ouço nada exceto o eco de minha voz. O Vulto, ainda aos prantos, chama-me soluçando. -Silent, você sabe quem eu sou, portanto não tenha medo! Só você pode me ajudar! - Começo a identificar a voz…

Ainda com receio, agacho-me ao lado da criatura e converso com ela. -O que você quer que eu faça? Você está com dor? Precisa ir ao médico? - Fico sem resposta. - Conte-me! O que há de errado? - O incômodo silêncio prevalece por mais alguns segundos, até que o Vulto se pronuncia. - Olhe para dentro de você. O que você vê? Você acha que precisa ir ao médico? Você acha que precisa de alguém? - A voz fica cada vez mais familiar. É uma voz grossa e forte. Uma voz jovem.

Olho para o meu corpo. Minhas mãos, pés, braços e tronco. Não há nada de diferente. Tudo parece normal. Quando olho novamente para a Sombra assusto-me: ela está de pé, logo a minha frente, encarando-me. Seu rosto está coberto pela sombra do capuz. Aquela indecifrável fisionomia se torna ainda mais clara.

Levanto vagarosamente minha mão direita e esfrego-a no rosto da criatura. Esta se afasta um pouco, com medo, mas logo se acalma e fica imóvel. Úmido devido às lágrimas que escorreram pelos olhos, a face passou a abrir um discreto sorriso, como se estivesse apreciando o carinho.

Sutilmente, a criatura segura minha mão e coloca-a sobre meu peito. Sinto uma dor incomensurável. Caio de joelhos e grito. Nunca havia sentido tamanho sofrimento. Imagens de minha vida passam pela minha cabeça. Sufocadas pelas memórias ruins, as boas parecem pequenas. Grito de novo. - Faça parar! Chega! Não aguento mais! Pare!

A Sombra, com uma voz agora tranquila, pergunta-me: - O que estás sentindo? Precisa de um médico? Não! Você não precisa de um médico! Você precisa de carinho e amor próprio! Não deixe que a parte escura tome conta da luz! Seja forte! - Levo as mãos à cabeça e forço-a. Não suporto a dor e caio deitado no chão. Solto os braços e contorço-me. Lembro de meus pais que se foram. Meus amigos, dos quais me esqueci, vêm a minha mente aos gritos, perguntando-me porque os deixei. Sinto-me sozinho!

Abro os olhos e vejo uma luz pulando e correndo. Aos poucos esta passa a ganhar forma. É um pequeno coelho. Reconheço-o e grito. - Xereta! Venha aqui! Xereta! - O animal olha atentamente para mim e corre em minha direção, mas não para. Atravessa-me a cabeça e o peito. Lembro-me dos momentos que passei com ele e sinto-me feliz.

Olho a minha volta, o dia começa a raiar. Percebo que a dor se foi e levanto-me. Olho para trás e lá está ela. A Sombra que tanto me agonizou está agora sem seu manto preto, o qual agora repousa sobre o sujo chão. Olho atentamente para o rosto dela e finalmente percebo de quem era a voz que quase consegui reconhecer. Com um manto branco, o anjo sorri para mim e diz: - Obrigado, você acabou de salvar a sua vida! - Então desaparece, como poeira ao vento.

Eu era a criatura que me assombrava. Não percebia que o pessimismo poderia me afetar tanto, a ponto de fazer parecer que minha vida é ruim porque este é meu destino. Não! Eu faço meu próprio dia! Eu faço a minha alegria!

E você, que está lendo este texto, também faz sua felicidade! Não deixe as dores do dia a dia estragarem os bons momentos, porque vida você só tem uma!

Silent: O que há de errado? II

Subo as intermináveis escadas até a frente da casa. Ainda imerso em escuridão, observo atentamente a estreita rua igualmente mal iluminada. Um único poste de luz está aceso. Meu olhar, a procura do obscuro, se cruza com o de outra criatura. Olhos grandes e amarelos, presos a uma grande massa de pelos escuros.

Atento a tudo que está ao meu redor, chamo-o. - Vem, Wiz, tenho uma surpresa para você. - Tiro do bolso um suculento pedaço de presunto e presentei-o ao assustador gato. Rapidamente, este abocanha sua presa e pula no topo do muro, e ali deita e saboreia a comida.

Saio pelo portão e miro minha visão na única luz ali presente. Esta começa a falhar e em questão de segundos apaga. Tudo está desiluminado. As casas já abandonadas não aparentam hospedar vida alguma. Tudo silencioso. Nada merece a menor atenção.

Decido caminhar pela obscura rua, olhando para as árvores tortas. Ainda inquieto devido à agonizante falta de iluminação, enxergo algo se mexendo ao longe. Um grande vulto negro andando em círculos. Me aproximo devagar e chamo-o repetidas vezes. - Alô! Quem está aí? Quem é você? Senhor?

Chego tão perto que consigo ouvir a respiração da criatura. Esta pára virada para uma parede de tijolos, virada de costas para mim. Congelo. Sinto meus pelos arrepiarem. Um frio incômodo atravessa meu peito, como um vento gelado. Sinto medo e vontade de gritar, mas não consigo. Estou preso ao pavor e ao pânico.

Boquiaberto, permaneço em choque, quando ouço uma voz. - Silent? Silent, é você? Me ajude! Me ajude! - Uma lágrima de medo escorre pelo meu gélido rosto, quando de repente…

Silent: O que há de errado?

Acordo com um grito agonizante vindo do outro lado da velha casa na qual resido. - Silent, vá alimentar os animais! - Minha madrasta, completamente impaciente, despejando toda sua arrogância em suas ásperas palavras.

Jogo a manta, que há pouco me aquecia, na parede e levanto-me. Calço meu chinelo-de-dedo branco e olho pela janela. O jardim está escuro, sem nenhum vaga-lume brilhando entre os galhos das árvores. Fecho as cortinas e dirijo-me à porta do quintal.

Giro a chave calmamente, mas pela idade da fechadura seu barulho é irritante. Quando abro a porta vejo um cachorro negro, sem correntes, olhando diretamente nos meus olhos. - Lyha, vamos descer! - A cadela me acompanha escada abaixo e se encontra com uma fera ainda maior.

Olhando-me atentamente, percebem que tudo está em silêncio e também o fazem, deixando-me realmente agitado. Não ouço nenhum carro na rua ou um morcego perambulando por aí. Tudo quieto, sem ruídos. Chego até a ouvir os mortos sussurrando a estória de suas mortes.

Vou em direção da grama e olho para o céu. Nenhuma estrela para iluminar as folhas das árvores. O brilho da Lua é fraco devido às nuvens que a cobrem. Quando volto à realidade, ouço o apelativo choro dos bichos por comida. Sirvo-lhes um caneco de ração a cada um e volto a fletar o nublado firmamento.

Pergunto-me então: O que há de errado com esta silenciosa noite?

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