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Silent: O que há de errado? III

A Sombra cai de joelhos no chão e leva as mãos ao rosto. Desespero-me. Grito por ajuda, mas ninguém aparece. Não ouço nada exceto o eco de minha voz. O Vulto, ainda aos prantos, chama-me soluçando. -Silent, você sabe quem eu sou, portanto não tenha medo! Só você pode me ajudar! - Começo a identificar a voz…

Ainda com receio, agacho-me ao lado da criatura e converso com ela. -O que você quer que eu faça? Você está com dor? Precisa ir ao médico? - Fico sem resposta. - Conte-me! O que há de errado? - O incômodo silêncio prevalece por mais alguns segundos, até que o Vulto se pronuncia. - Olhe para dentro de você. O que você vê? Você acha que precisa ir ao médico? Você acha que precisa de alguém? - A voz fica cada vez mais familiar. É uma voz grossa e forte. Uma voz jovem.

Olho para o meu corpo. Minhas mãos, pés, braços e tronco. Não há nada de diferente. Tudo parece normal. Quando olho novamente para a Sombra assusto-me: ela está de pé, logo a minha frente, encarando-me. Seu rosto está coberto pela sombra do capuz. Aquela indecifrável fisionomia se torna ainda mais clara.

Levanto vagarosamente minha mão direita e esfrego-a no rosto da criatura. Esta se afasta um pouco, com medo, mas logo se acalma e fica imóvel. Úmido devido às lágrimas que escorreram pelos olhos, a face passou a abrir um discreto sorriso, como se estivesse apreciando o carinho.

Sutilmente, a criatura segura minha mão e coloca-a sobre meu peito. Sinto uma dor incomensurável. Caio de joelhos e grito. Nunca havia sentido tamanho sofrimento. Imagens de minha vida passam pela minha cabeça. Sufocadas pelas memórias ruins, as boas parecem pequenas. Grito de novo. - Faça parar! Chega! Não aguento mais! Pare!

A Sombra, com uma voz agora tranquila, pergunta-me: - O que estás sentindo? Precisa de um médico? Não! Você não precisa de um médico! Você precisa de carinho e amor próprio! Não deixe que a parte escura tome conta da luz! Seja forte! - Levo as mãos à cabeça e forço-a. Não suporto a dor e caio deitado no chão. Solto os braços e contorço-me. Lembro de meus pais que se foram. Meus amigos, dos quais me esqueci, vêm a minha mente aos gritos, perguntando-me porque os deixei. Sinto-me sozinho!

Abro os olhos e vejo uma luz pulando e correndo. Aos poucos esta passa a ganhar forma. É um pequeno coelho. Reconheço-o e grito. - Xereta! Venha aqui! Xereta! - O animal olha atentamente para mim e corre em minha direção, mas não para. Atravessa-me a cabeça e o peito. Lembro-me dos momentos que passei com ele e sinto-me feliz.

Olho a minha volta, o dia começa a raiar. Percebo que a dor se foi e levanto-me. Olho para trás e lá está ela. A Sombra que tanto me agonizou está agora sem seu manto preto, o qual agora repousa sobre o sujo chão. Olho atentamente para o rosto dela e finalmente percebo de quem era a voz que quase consegui reconhecer. Com um manto branco, o anjo sorri para mim e diz: - Obrigado, você acabou de salvar a sua vida! - Então desaparece, como poeira ao vento.

Eu era a criatura que me assombrava. Não percebia que o pessimismo poderia me afetar tanto, a ponto de fazer parecer que minha vida é ruim porque este é meu destino. Não! Eu faço meu próprio dia! Eu faço a minha alegria!

E você, que está lendo este texto, também faz sua felicidade! Não deixe as dores do dia a dia estragarem os bons momentos, porque vida você só tem uma!

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